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Por Fernando Lima Magalhães
Com uma grande variedade de formas de tratar os
diversos problemas psicológicos, nomedamente de
ansiedade e depressão, é compreensível que as pessoas
sintam alguma confusão e insegurança na altura de
escolher quer um psicólogo, quer um tipo de "terapia"
que seja a mais útil e eficaz.
Por isso, vou tentar descrever o
que significa terapia cognitiva, as suas
vantagens e como funciona, com um exemplo de um
diálogo entre terapeuta- cliente.
Qualquer problema
psicológico pode ser descrito ou explicado em
termos de pensamentos, emoções e comportamentos.
Indivíduo 1: Por
exemplo, diante a situação de falar em público,
um indivíduo pode ter pensamentos
automáticos como "vou corar; vou fazer
um papel de tolo; ninguém vai gostar da minha
apresentação, vão perceber a minha ansiedade;
corar é uma vergonha; se gaguejar vai ser
horrível; estou tão preocupado com a minha
ansiedade que nem me consigo concentrar no que
tenho para dizer ". Em função destes
pensamentos, o indivíduo vai sentir
emoções negativas, como medo, tristeza
e culpa. Depois poderá ter
comportamentos que podem agravar a
situação como preparar-se excessivamente,
procurar adivinhar o que vai acontecer, imaginar
uma "catástrofe" ou procurar controlo daquilo
que não é possível controlar (ex: procurar a
aprovação de toda a gente ou exigir-se uma
apresentação perfeita).
Estes três elementos (pensamento, emoção e
comportamento) são interligados entre si, muitas
vezes levando a ciclos viciosos. Por exemplo, a
emoção de ansiedade pode desencadear
pensamentos ansiosos e também estes pensamentos
de desastre eminente podem provocar mais
sentimentos de ansiedade.
Na
terapia mudam-se em pequenos passos os
pensamentos, emoções e comportamentos e
deverá ser tolerante pelo tempo que é necessário
para esta mudança e não esperar uma alteração
radical em 24 horas.

Indivíduo 2: Agora imagine outra
pessoa diante a situação de
falar em público, com pensamentos do género:
"Aceito que há uma porção de pessoas que
possivelmente não vão gostar, mas aceito que há
um grupo que gosta; vou procurar ser eficaz e não
ser perfeito, aceito que posso sentir ansiedade
e respirar lenta e pausadamente, as pessoas vão
estar lá para me ouvir e não para avaliar se
estou ansioso ou não; já apresentei outras vezes
e sinto-me mais ou menos bem preparado desta
vez; vou procurar focar-me naquilo que preciso
de transmitir às pessoas e não na minha própria
ansiedade; se gaguejar continuo normalmente pois
as falhas são naturais e humanas". Esta
pessoa na mesma situação vai sentir
emoções como confiança, satisfação, uma
ligeira apreensão e optimismo. O seu
comportamento vai ser eficaz, pois vai
preparar-se adequadamente, não vai imaginar o
futuro, vai ler e estudar (sem exigir
perfeição), vai respirar lenta e pausadamente se
sentir ansiede, se corar vai achar piada a isso
e até pode brincar com a situação ("está tanto
calor que até estou a corar", ou " a ansiedade é
engraçada pois fez-me corar") sem se julgar ou
avaliar por isso. Como não se está a rotular por
corar nem por sentir ansiedade, vai estar muito
melhor numa próxima situação, pois não aprendeu
ideias negativas desta experiência, e foi apenas
uma oportunidade de aprender.
Em suma, diferentes interpretações dos mesmos
sintomas podem levar a emoções completamente
diferentes.
Mas o primeiro indivíduo poderá estar muito
convencido de que os seus pensamentos são úteis
e eficazes e acreditar que não existem outras formas
de ver a situação, e pior ainda, achar que é a
situação de falar em público que provoca a
ansiedade e o medo! Outra forma ineficaz é usar
medicamentos para lidar com a situação, que
apenas "disfarçam" a ansiedade, pois os
pensamentos "automáticos", que surgem
espontaneamente na mente que estão na origem do
medo, não vão ser alterados pela medicação.
Na terapia cognitiva, os clientes aprendem a:
Distinguir entre pensamentos, sentimentos e a
própria realidade. Muitas
vezes usamos as palavras "pensar" e "sentir"
como sinônimos (por exemplo, "Eu sinto que seria
uma má decisão comprar esse carro" - Esse
é um pensamento, não um sentimento). Na verdade,
nós às vezes não são somos conscientes dos
pensamentos automáticos que acompanham
sentimentos. Por exemplo, pode sentir-se
particularmente triste depois de receber
críticas de um chefe sem estar consciente do
pensamento, "Agora eu nunca terei a promoção e
não será capaz de dar ao luxo de comprar uma
casa." Na terapia cognitiva, os clientes
primeiro treinam, identificam, escrevem e
distinguem entre pensamentos e sentimentos.
Tornar-se consciente das maneiras que os
seus pensamentos influenciam os seus sentimentos.
Os clientes em terapia cognitiva analisam as suas
próprias experiências, associadas a uma mudança
no humor e na ligação destes com as suas
respostas comportamentais. O que estava a pensar
antes de notar que estava a ficar triste? Quando
tem o pensamento automático: "Eu não consigo
fazer nada direito", como se sente? Quando
você enfrentar esses pensamentos e sentimentos é
mais provável que você faça algo construtivo ou
desistir? Que tipo de comportamento aumenta a
probabilidade de sucesso? Por exemplo, se não
age como gostaria de agir, poderão existir
pensamentos ou crenças auto-desmoralizantes,
críticos ou perfeccionistas que paralisam a
acção; se estamos a exigir demasiada perfeição
de um comportamento, isto pode criar tanta
tensão que o mais certo é uma paralisação,
devido ao medo de falhar, como se esta “falha”
fosse uma catástrofe.
Avaliar criticamente a veracidade de seus
pensamentos automáticos e suposições.
Os clientes em terapia cognitiva são incentivados a
desafiar os seus pensamentos automáticos,
considerando os factos, a realidade, as
explicações alternativas e a conduzir
experiencias comportamentais informais. O
objectivo é não adotar uma visão
irrealisticamente otimista ou positiva. Pelo
contrário, aprende-se a considerar o bem e o
mal, as provas a favor e contra, e chegar a um
pensamento mais correto e lógico, menos
preconceituoso, e muitas vezes a conclusões mais
razoáveis e flexíveis. Por exemplo, imagine que
(a) recebe feedback crítico de seu chefe, (b)
tem o pensamento automático: "Eu não consigo
fazer nada direito", e então (c) se sente
triste. Você pode aprender a avaliar
criticamente o conteúdo real do feedback, as
circunstâncias do feedback e que provas você tem
(pró e contra) que você não consegue fazer nada
direito, a fim de avaliar a precisão e utilidade
do que o pensamento inicial automático lhe
sugeria .
Desenvolver as habilidades para perceber,
interromper e intervir ao nível dos pensamentos
automáticos e como eles acontecem.
Finalmente, o objetivo da terapia cognitiva é
desenvolver as habilidades para modificar
processos cognitivos habituais. Como acontece
com qualquer habilidade, é preciso tempo e
prática para obter a eficácia de aplicar
técnicas de terapia cognitiva.
Isto até parece simples! Mas porque não consegui mudar
até agora?
O seu corpo e cérebro emocional não
distinguem entre coisas que pensa ou imagina e a
experiência real, física. Se pensar num filme de
terror, o coração pode começar a bater rápido;
se pensar numa praia pode começar a ficar
relaxado. Nós estamos sempre a falar connosco
próprios e o conteúdo deste diálogo poderá ser
negativo. Nós entramos facilmente num ciclo de
auto-crítica, adivinhação, auto- instrução,
auto- aconselhamento e depois de repetirmos algo
as vezes suficientes, nós acabamos por
acreditar (mesmo não sendo necessariamente
verdade). Nós raramente paramos para avaliar os
nossos pensamentos e as emoções que em geral, que
vão acompanhar o que pensamos. Se disser a si
próprio “nunca vou conseguir o emprego”, e
reforçar este pensamento com sentimentos de medo
e pessimismo, pode ir a uma entrevista com isto
em mente e ao mostrar-se com pouca confiança, é
menos provável de conseguir o emprego. Muitas
vezes, estes pensamentos irracionais já existem
há anos ou até desde a infância, acompanhados
por emoções fortes. Quando temos um pensamento
acompanhado por uma emoção forte, como o medo,
esta interpretação parece credível e tendemos a
agir de acordo com ela (Ex: "Eu sinto um medo
muito forte de ser criticado ou ridicularizado
naquele jantar ou situação social, por isso é
melhor não ir; Se sinto medo por o coração bater
rápido, é porque vou ter um ataque cardíaco”).
Portanto, a tendência é entramos neste ciclo
intenso e viciante de pensamento- emoção-
comportamento. Com o tempo isto tende a
generalizar-se a outras situações. Este ciclo é
muito rápido, automático e aparentemente
convincente.
De qualquer das formas, é
sempre possível aprender a mudar, mesmo que os
problemas existam há muito tempo. Os pensamentos
não estão fixados no cérebro, tal como num
computador poderá trocar o software. Mas em
seres humanos, o pensamento negativo costuma ser
um hábito associado a emoções e comportamentos
negativos, o que torna a mudança mais difícil,
mas possível.
Nas situações, surgem pensamentos automáticos
que se forem "negativos", por sua vez provocam emoções negativas, que por
sua vez provocam certos comportamentos
prejudiciais (como evitar situações, evitar
pessoas, desistir, adiar as tarefas). Em
geral, nós conseguimos compreender mais
facilmente este ciclo nas outras pessoas, mas
quando estamos mergulhados no nosso próprio mar
de pensamentos, é muito difícil para nós termos
o distanciamento e “frieza” para identificar e
corrigir os nossos próprios padrões irracionais de
pensamento. Daí ser importante o papel do
psicólogo (cognitivo- comportamental) que ajuda
a reconhecer, a desmontar, a dar feedback e a
corrigir os padrões de pensamento. Daí a terapia
ser cognitiva (compreender e corrigir o próprio
pensamento) e comportamental (treinar novas
formas mais eficazes e realistas de
comportamento, tal como fazem as outras pessoas
que funcionam bem na mesma situação). Por
exemplo, se existe medo de falar em público, não
vamos começar o treino falando para muitas
pessoas. Vamos treinar pensamentos lógicos,
aprender a gerir emoções negativas e só depois
definir passo a passo situações em que pode
praticar estas ideias, desde situações
acessíveis como fazer um discurso para 2 amigos.
Tal como
um dentista não consegue tirar dentes a si
próprio, também por vezes é necessário testarmos
o nosso ponto de vista com outra pessoa (neutra
e imparcial).
Qual é a diferença entre a terapia cognitivo- comportamental (TCC)
e outros tratamentos psicológicos?
TCC é um tipo de psicoterapia.
É diferente de outros tipos de psicoterapia que
envolvem falar livremente ou debruçar sobre os eventos em
seu passado, para obter compreensões sobre o seu
estado emocional ou como lidou com eventos no
passado. Apenas por descobrir que há 20 anos
atrás houve um acontecimento negativo, a partir
do qual começou a pensar de forma mais
irracional ("Ex: Não presto, tenho pouco valor,
as pessoas não gostam de mim"),
provavelmente não vai mudar a
forma de pensar e sentir no presente, ou obter
um efeito "terapêutico" por isso, como
defendem outros tipos de terapia. Se eu
descobrir que comecei a engordar há anos atrás,
não me vou tornar mais magro por isso.
A TCC não é terapia do género "deitar no divã
e
dizer tudo o que lhe vem na mente". A TCC tende a lidar com o aqui e
agora - como os seus pensamentos e comportamentos
atuais o estão a afectar agora. Ela reconhece que
os acontecimentos no seu passado moldaram a
maneira como atualmente pensa, sente e se
comporta. Podemos ir ao passado e compreender
como podemos criar crenças erradas a partir de
acontecimentos passados, utilizando padrões de
pensamento e comportamentos aprendidos na
infância (“Se um amigo na escola me humilhou é
porque eu não presto”) e modificar estas ideias
para serem úteis no presente. No entanto, a CBT
não está centrada sobre o passado, pois o que
passou não se altera e é inútil remoer
acontecimentos negativos, mas visa encontrar
soluções de como mudar seus pensamentos e
comportamento atuais, para que possa funcionar
melhor, agora e no futuro.
A TC não é a utlização de estratégias e técnicas
isoladas e mecânicas, como aparentemente poderia
parecer. Depois de uma conceituação de
caso, que é uma compreensão da história
do cliente e de como este aprendeu e desenvolveu
os padrões de pensamento que poderão ser
"ilógicos" ou "irracionais" no presente, há uma
orientação para o seguimento da terapia. A
conceituação de caso é feita de um modo
colaborante entre psicólogo- cliente, onde ambos
"descobrem" e deduzem eventuais padrões ou
formas habituais de pensar que estão na origem
dos problemas psicológicos actuais. Por exemplo,
se o indivíduo a partir de um conjunto de
situações sociais negativas onde foi
ridicularizado, poderá ter desenvolvido
crenças sobre si próprio ("Ex: Não
presto, sou inapto, sou incompetente") e algumas
atitudes e regras em relação ao
mundo ("Se me proteger e evitar as pessoas, não
vou sofrer; se for exposto em público vou ser
gozado").
Por isso é necessário ter um grande
conjunto de competências terapêuticas
necessárias para garantir que a terapia funcione
de um modo coerente e articulado, onde esta faz
sentido para o cliente. É importante estabelecer
uma boa relação de trabalho com o paciente.
Cliente e terapeuta trabalham
como uma equipa para avaliar as crenças
irracionais, testando-as para verificar se estão
corretas ou não e modificando-as de acordo com
princípios lógicos, razoáveis, realistas,
funcionais e "equilibrados". O terapeuta usa um
conjunto de questões técnicas e exercícios como um
meio de guiar o paciente num questionamento
consciente que permitirá que este tenha uma
compreensão sobre seu pensamento distorcido.
Valorizo muito o chamado "caderno de
terapia", onde o cliente vai juntando
num dossier o seu percurso de aprendizagens e
ganhos na terapia, bem como todos os seus
registos do que escreveu na
consulta com os resultados dos exercícios e as
novas habilidades
e ideias construtivas que vai descobrindo para que possa ler em casa
ou sempre que desejar e precisar. A memória é
poderosa para apagar pensamentos construtivos,
especialmente após um período intenso de
ansiedade e/ou depressão, daí o "caderno" como
forma de minimizar o esquecimento daquilo que
interessa pensar e fazer!
Ao longo do tratamento, utiliza-se uma abordagem
colaborante
e psicoeducativa, com experiências específicas
de aprendizagem desenhadas com o intuito de
ensinar os pacientes a:
1) Dar-se conta dos padrões de pensamento e identificar pensamentos
automáticos;
2) Reconhecer as relações entre
pensamento, emoção e comportamento;
3) Testar a validade de pensamentos
automáticos e crenças centrais, regras e
pressupostos;
4) Corrigir interpretações e entendimentos
irracionais de si e do mundo, substituindo
pensamentos distorcidos por ideias mais
realistas e que funcionem;
5) Identificar e alterar crenças, pressupostos
ou esquemas que estão na origem de padrões
disfuncionais de pensamento.
Existem literalmente milhares de técnicas
diferentes para serem usadas: é espantoso o
desenvolvimento das terapias cognitivas nos
últimos anos e não páro de ficar espantado com
os desenvolvimentos actuais.
Estas técnicas a serem aplicadas variam de
acordo com perfil
de pensamentos do cliente, do tipo de problema
psicológico, da fase da terapia e
da conceitualização cognitiva específica de um
determinado caso.
As técnicas comportamentais são mais usadas em
casos de depressão grave onde existe uma
necessidade de promover mudanças de
comportamento do paciente. Ao fazer pequenas
mudanças no comportamento, como falar com amigos
ou pequenos passeios, melhora mais rapidamente o
estado de ânimo, dá-se conta de como eram
irracionais os pensamentos que o faziam estar em
casa e motivam a continuar a agir e a mudar a
maneira de pensar. Noutros casos, quando não é
necessário uma ativação do comportamento,
técnicas mais dirigidas à mudança do
pensamento podem ser aplicadas. Para os
transtornos de ansiedade, uma compreensão dos
princípios fundamentais do modelo cognitivo será
provavelmente necessário antes de qualquer exercício comportamental.
Esta fase é habitual nas primeiras consultas.
Uma série de técnicas
cognitivas é usada em TC, como identificação,
questionamento e correção de pensamentos
automáticos, avaliação de pressupostos e regras,
avaliação e gestão das preocupações, correção de
erros de lógica, aprender a colocar os
acontecimentos em perspectiva, técnicas de
gestão e processamento de emoções, ensaio
cognitivo e outros procedimentos de treino de imagens mentais
positivas. Técnicas comportamentais
são, por exemplo, criar um horário de
atividades, avaliações de prazer e habilidade,
definir um conjunto de tarefas graduais,
experimentos de teste da realidade, role-plays,
treinamento de habilidades sociais e técnicas de
solução de problemas. O tratamento inicial é
centrado no aumento da consciência por parte do
paciente de seus pensamentos automáticos e um
trabalho posterior centra-se nas crenças
mais antigas, mais profundas e subjacentes. O
tratamento pode começar identificando e
desafiando pensamentos automáticos e o que pode
ser realizado de maneiras diferentes. O
terapeuta pode orientar os pacientes a avaliar
seus pensamentos automáticos, principalmente
quando há uma forte emoção percebida
durante a consulta, simplesmente perguntando: “O que está se passando na sua mente?”, ou qualquer variação desta pergunta.
À medida que este conjunto de intervenções vai
prosseguindo e que o cliente pratica e utliza
formas diferentes de pensar e de agir, os
sintomas vão melhorando e novas formas eficazes
de lidar com as situações vão sendo
estabelecidas no comportamento do cliente.
Depressão
As pessoas com ansiedade e
depressão
experimentam emoções negativas, como medo e
tristeza, com muita frequência ou intensidade,
sem a habilidade para regular ou gerir estes
sentimentos.
No
caso da depressão
endógena que constitui cerca de 10% dos casos e
tem origem em disfunções químicas no cérebro ou
em factores hereditários (genes), o
tratamento privilegiado deverá ser o medicamentoso.
Mas a grande maioria das
depressões tem origem em reacções psicológicas a
acontecimentos de vida, negativos ou stressantes- é a
depressão exógena. Ou seja, são os
eventos negativos que podem desencadear a depressão.
Por exemplo, o desemprego, relacionamentos que
terminam, sentimentos de perda, rejeição amorosa,
divórcio, conflitos, ou frustração em atingir um
objectivo pessoal, são factores frequentes que
explicam o início de uma depressão.
Mais do que os
acontecimentos em si, é a forma como as pessoas
interpretam os acontecimentos, que é, em geral, uma
leitura ou avaliação negativa de si e dos outros, o
que permite manter e desenvolver a depressão. O
problema é que estas pessoas passam a distorcer a
realidade e a avaliar negativamente, de forma
sistemática, as informações do meio. Se nós temos um
sentimento de tristeza ou depressão, é porque os
nossos pensamentos conduziram a esse sentimento e não
tanto devido aos acontecimentos exteriores a nós. É o
pensamento que determina a nossa forma de sentir. Por
exemplo, a ansiedade está frequentemente associada a
pensamentos de perigo ou de que algo de negativo pode
vir a acontecer.
Na depressão as pessoas
estão convencidas que os seus pensamentos são
verdadeiros, válidos e úteis, quando na realidade,
eles são na sua maioria interpretações irrealistas e
distorcidas da realidade. Por exemplo, depois de uma
rejeição amorosa, podem haver pensamentos como estes:
" A culpa é minha"
"Ninguém me vai amar"
"Nunca mais vou conseguir
amar alguém"
Estes e outros
pensamentos estão na base dos sentimentos de tristeza
e/ou depressão.
É através da terapia que
o cliente vai descobrindo os padrões de pensamento
irrealistas e que não funcionam e que permitem que a
depressão se mantenha. O psicólogo ajuda a encontrar
interpretações realistas e adaptativas e apoia na
mudança do comportamento, pois a acção é fundamental
na superação da depressão.
Ou seja, o medicamento
não vai alterar a nossa visão ou perspectiva dos
acontecimentos, apenas vai proporcionar um alívio dos
sintomas depressivos, mas não resolve a origem da
depressão, que está, na grande maioria dos casos e
situações, na forma distorcida e negativa de ver as
coisas. O medicamento é útil porque torna as pessoas
mais aptas e capazes de compreender o que se faz na
terapia psicológica. Assim, o medicamento actua nos
sintomas na depressão, mas não nas causas. Aqui pode
surgir outro problema: a ilusão de melhoria dos
sintomas provocada pelos medicamentos pode desmotivar
o indivíduo a iniciar a terapia psicológica. Ou seja,
o indivíduo ao não realizar a terapia psicológica não
se permite a compreender o processo que levou à
depressão nem a implementar as formas alternativas,
lógicas e racionais, nem a um conjunto de acções que
além de irem ao cerne da depressão, permitiria evitar,
frequentemente, recaídas. É por esta razão que existem
muito mais recaídas no tratamento da depressão que é
feito apenas com medicamentos. As estratégias para
gerir e enfrentar os acontecimentos de vida não foram
"apreendidas" com o medicamento. Existe ainda um crescente
número de estudos independentes (Antonuccio et al,
1998) que apontam apenas para uma ligeira vantagem dos
anti- depressivos em comparação com um placebo
(substância sem qualquer acção no organismo). Todavia, ainda persiste a
crença popular que as drogas são a forma mais eficaz
de tratamento da depressão, ansiedade , do transtorno
obsessivo compulsivo.
A teoria biológica
preconiza que são alguns distúrbios químicos no
cérebro que estão na origem da depressão, mas também é
verdade que a bioquímica do cérebro altera-se de
acordo com as maneiras de pensar e com as experiências
de vida - ou seja, a terapia cognitivo-
comportamental ao alterar as maneiras irrealistas de
interpretar certos acontecimentos também altera a
química do cérebro. As nossas experiências
de vida e as formas de as interpretar alteram a
química do cérebro bem como as suas associações
neuronais. Quando aprendemos uma nova habilidade, como
andar de bicicleta ou aprender a tocar um instrumento
musical, essa informação fica em novas associações de
neurónios. Com a prática, esse comportamento fica
automatizado e deixa de ser necessário "pensar" nele.
Os medicamentos podem
mudar a química do cérebro durante algum tempo (pois
só funcionam enquanto estão a actuar no cérebro e
depois de sintetizados pelo organismo, o efeito
desaparece). Mas só com a terapia cognitivo-
comportamantal é que os efeitos poderão ser
permanentes pois ao aprender novas estratégias e
praticar novas métodos (por exemplo, novas formas de
interpretar e lidar com o falar em público ou o medo
das alturas), isto cria novas associações neuronais.
Com a prática, isto também altera a química do cérebro
e de forma permanente.
As pessoas são muito mais
ajudadas quando são encorajadas a tomarem um papel
activo nas suas vidas, a identificarem os seus erros
de pensamento e a desafiarem a sua maneira de pensar,
verificando se os seus pensamentos são verdadeiros ou
não.
O problema é que existem
alguns modelos de psicoterapia, bastante lentos e de
eficácia por comprovar, que contribuíram para alguma
desvalorização do papel da psicologia ou da eficácia
da terapia. Alguns tipos de terapia não definem
objectivos de intervenção ou não indicam estratégias
para enfrentar certos problemas e na qual o terapeuta
tem um papel muito passivo. Por exemplo, apesar de
muitas pessoas passarem por muitas sessões de
psicanálise, ela não tem demonstrado funcionar na
depressão (Seligman, 2006).
É por todas estas razões que a terapia cognitivo-
comportamental ultrapassa a medicação a médio e longo
prazo.
Exemplo de uma consulta:
De seguido exemplifico o uso de uma
técnica numa consulta, para um cliente com depressão
que se costuma rotular e avaliar negativamente,
de uma forma que mantém o pensamento negativo.
Psicólogo:
Para que nós possamos
examinar e contestar os pensamentos,
precisamos de saber o que
está
a querer dizer. Se você
se rotula como 'fracasso', precisamos saber o
que fracasso
significa para
si. Como
você define
fracasso? Você está usando termos e
conceitos que jamais definiu para si mesmo ou
para os outros?
(o cliente escreve as suas respostas numa
coluna da folha de registo de pensamentos)
Esta técnica – definição dos termos – é conhecida como a 'técnica
semântica' porque lhe pede para definir o significado dos termos que está
a utilizar para si próprio".
Imagine que é um cientista (ou um psicólogo) fazendo
investigação.
Alguém diz: "João é um fracasso", e você quer
determinar se esta afirmação reflete a percepção
acurada de João. A primeira
coisa que precisamos fazer é definir fracasso. Por exemplo,
podemos defini-lo como:
·
Não ter sucesso.
·
Não ser capaz de obter recompensas, prêmios
·
Ser inferior a quase todos em tudo.
Ou, se você for propenso à autocrítica e à depressão, talvez tenha uma
maneira própria de definir fracasso para si mesmo.
Você pode
defini-lo como algo com o qual quase ninguém,
além de si, concordaria. Por exemplo,
poder-se-ia defini-lo pelos seguintes critérios:
·
Não se sair tão bem quanto gostaria.
·
Dar menos de 100% de si mesmo.
·
Não se sair tão bem quanto outra pessoa.
·
Fazer mal determinada tarefa.
Assim,
vamos descobrir sua definição de fracasso.
Pergunta a Formular/Intervenção
pelo Psicólogo:
Como você definiria as coisas que
o estão a incomodar? Por exemplo, como
saberíamos que alguém não tem valor, é
bem-sucedido, é um fracasso, e assim por diante?
Como saberíamos que alguém não é alguma dessas coisas? Dê uma definição
detalhada.
O cliente
escreve as suas respostas numa das colunas da folha de registo
de pensamentos automáticos.
Exemplo
do diálogo psicólogo- cliente:
TERAPEUTA: Você disse que se sente um fracasso
desde que Bill a deixou. Como
você
definiria
fracasso?
PACIENTE: Bem, meu casamento não deu certo.
TERAPEUTA: Então você acredita que o casamento não deu certo porque você,
como pessoa, é um fracasso?
PACIENTE: Se tivesse dado certo, ele ainda
estaria comigo.
TERAPEUTA: Então podemos concluir que as pessoas cujos casamentos não dão
certo são todas fracassadas?
PACIENTE: Não, acho que eu não iria assim tão
longe.
TERAPEUTA: Por que não? Devemos ter uma definição de fracasso para você e
outra para o restante das pessoas?
Este
exemplo ilustra como o simples fato de extrair
as definições negativas e extremas dos pacientes
pode ajudá-los a compreender quão irracional é
sua perspectiva. Indivíduos que definem fracasso
como menos do que "sucesso extraordinário"
poderão ver que sua definição é polarizada,
que emprega
termos do tipo tudo-ou-nada – isto é, -sucesso
completo" versus "fracasso completo".
Uma variação da técnica semântica é perguntar ao paciente como os outros
definem "sucesso"ou"fracasso". Eu prefiro fazer que o
paciente se concentre na extremidade positiva do
continuum, pedindo
que defina termos como "sucesso" ou "o que vale
a pena".
TERAPEUTA: Você vê que sua definição de
fracasso é bem diferente de como outras pessoas
poderiam defini-lo. Poucas pessoas diriam que alguém que se divorciou é
um fracasso. Vamos nos concentrar agora na extremidade positiva. Como a maioria das
pessoas define sucesso em relação a alguém?
PACIENTE: Bem, elas podem dizer que as pessoas têm sucesso quando atingem
alguns de seus objetivos.
TER: OK. Então, poderíamos dizer que se alguém atinge seus objetivos,
essa pessoa é bem-sucedida?
PACIENTE: Certo.
TERAPEUTA: Também poderíamos dizer que as pessoas
têm diferentes graus de sucesso? Algumas
pessoas atingem mais objetivos do que outras?
PACIENTE: Acho que sim.
TERAPEUTA: Então, se aplicarmos essas idéias a si, poderíamos dizer que
atingiu alguns de seus objetivos na vida?
TERAPEUTA: Sim, eu terminei a faculdade e
trabalhei nos últimos seis anos. Crio meu filho e ele teve alguns problemas médicos há
alguns anos, mas eu consegui bons médicos para
ele.
TERAPEUTA: Então, poderíamos dizer que esses comportamentos foram
bem-sucedidos?
PACIENTE: Certo. Eu tive alguns sucessos.
TER: Será que não existe uma contradição em sua forma de pensar – chamar
a si mesma de
fracasso, mas dizer que teve vários sucessos?
PAC:
Sim, isso não faz sentido, faz?
O cliente
escreve alguns pensamentos e conclusões lógicas e o resultado
desta técnica na folha de registo de
pensamentos. Para continuar a eficácia deste
exercício, o cliente leva para casa uma ficha
onde
pode praticar a definição dos
termos de seus pensamentos negativos, por
exemplo, quando estiver a pensar em termos de
tudo ou nada, a rotular-se, a desqualificar-se.
Depois as suas definições
são analisadas em consulta para testar a
possibilidade de seu pensamento ser
erróneo.
Finalmente, nas semanas seguintes o
cliente escreve crenças, atitudes, e
definiçõesde "sucesso" mais razoáveis e
justas que acredita poder usar consigo próprio.
Outras técnicas que podem ser usadas:
Para alguns pacientes, o sentimento é a definição – "Eu sinto que sou um fracasso". Esse
raciocínio emocional" é a evidência que o paciente usa para apoiar sua
noção de fracasso. Sugiro ao paciente que examine como o dicionário
chega a uma definição.
O
dicionário examina o uso comum da palavra – isto é, como a maioria das
pessoas define fracasso? Sugiro que tentemos chegar a definições
que possam ser usadas em um estudo científico –
definições que outras pessoas poderiam usar para examinar os mesmos fatos e chegar às mesmas conclusões. Por exemplo, se eu definir
"frio" como "menos de 1
grau", as pessoas poderão
determinar facilmente se está frio lá fora.
Se eu definir o comportamento bem-sucedido como fazer progresso em
relação ao objetivo, então poderei avaliar se alguém está
progredindo em relação a ele e, assim,
determinar se está tendo algum
sucesso como resultado do comportamento.
Outras falhas frequentes nas definições dos pacientes: serem
excessivamente globais, vagas e inconsistentes. As definições
podem mudar de acordo com as mudanças de humor. Convém
salientar para os pacientes que a definição
talvez não esteja suficientemente clara e
precisa. Uma
maneira de transmitir isso é perguntar: "Se outras pessoas usassem a sua definição de 'fracasso',
poderiam sair por aí identificando
fracassados?". Vale a pena enfatizar que as definições dos pacientes podem ser tão
idiossincráticas que se assemelham muito pouco
às definições geralmente dadas aos mesmos termos.
O terapeuta deve perguntar: -É assim
que a maioria das pessoas definiria este termo?" ou "Como os outros
empregariam este termo?"
Além disso, o termo pode ser
tão carregado de valor e subjetivamente
determinado que fica realmente impossível
defini-lo. Por exemplo, para os nossos
propósitos, o termo "pessoa que vale a pena" é
inexpressivo, pois não temos como sair por aí
determinando quais pessoas valem a pena e quais
não valem. Poderemos lidar um pouco melhor com o
termo "ações que valem a pena" – isto é, ações
que têm valor para a pessoa e para os outros –
mas mesmo aqui estaremos " a patinar sobre gelo fino". É comum os pacientes perceberem que se preocupam com
termos inexpressivos como "pessoa que vale a pena" ou
"perdedor" ou "fracasso total". Ajudar os
pacientes a se concentrarem em comportamentos mais ou
menos desejáveis para eles monta o cenário para
se avaliar como é
possível aumentar ou reduzir a frequência desses
comportamentos.
Conclusão: depois de alguns meses
de terapia cognitiva,
este cliente deixou de se criticar inultilmente
e deixou de ter um pensamento polarizado em
termos de 8 e 80. Passou a aceitar e a valorizar
os seus sucessos e a descrever os acontecimentos
em termos mais concretos como "sou bem sucedido
no emprego, mas não tão bem sucedido nos
desportos". Todos os dias relê uma lista
com os seus sucessos, para reduzir o pensamento
crítico, que estava focado na auto-crítica. Como não se está a
auto-desvalorizar, os sentimentos depressivos
desapareceram e tornou-se ainda mais eficaz no
trabalho, pois um pensamento moralizante aumenta
a capacidade de concentração e de trabalho. Ao
não se estar constantemente a pressionar para um
desempenho "perfeito", reduziu muito os níveis
de ansiedade, ao aceitar um comportamento eficaz
e bem sucedido, na mesma medida que é este
padrão que também considera para as outras
pessoas. Passou lentamente a aplicar um padrão
de exigência razoável, que também é o padrão que
poderia usar com outras pessoas.
Última actualização: 06/11/2012
Bibliografia Consultada:
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Kirsch I, Sapirstein G (1998), Listening to Prozac
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cognitiva. Rev. Bras. Psiquiatr. [online].
2008, vol.30, suppl.2
Revista Forbes de 09/ 04 /2007- "Patient
Fix Thyself"
Seligman, Martin E. (2006) Learned Optimism: How to
Change your mind and your life. Vintage Books
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