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Todos
estamos mergulhados num "caldo cultural", onde
sentimos e pensamos em ralação às pessoas e
acontecimentos. Todavia, algumas pessoas,
poderão ser alvo de uma atitude favorável ou
desfavorável, apenas pelo facto de serem
percebidas como pertencentes a um grupo
particular.
Por exemplo, em relação às
variáveis sexo e género, poderíamos
pensar num grupo de homens e noutro de mulheres.
Imaginemos que existia uma oferta de emprego de
motorista de autocarro, e que decorreu um
processo de selecção, mas só foram seleccionados
homens. Imaginemos que quem seleccionou os
motoristas acreditava que só os homens é que
seriam capazes e competentes para uma boa
condução dos veículos, e baseado neste
preconceito, não deu sequer oportunidades às
mulheres para comparecerem a uma entrevista. A
crença do "seleccionador" teve por base um
preconceito sexual, porque as mulheres foram
avaliadas, a priori, apenas por serem "mulheres"
e não pelas características individuais,
independentemente do sexo/ género. Até há poucos
anos, esta poderia ser uma crença geralmente
aceite como verdadeira, mas hoje encontramos
mulheres a conduzir veículos pesados de forma
tão competente quanto os homens.
Assim, o preconceito
pode ser definido como "atitude favorável ou
desfavorável em relação a membros de algum grupo
baseada sobretudo no facto da pertença a esse
grupo e não necessariamente em características
particulares de membros individuais" (Neto,
1998).
Muitos tipos de grupos podem ser
alvos de preconceitos e por isso, existem várias
categorias de preconceito e discriminação. O
racismo é o tipo de preconceito mais frequente,
logo seguido pelo sexismo, como vimos no exemplo
anterior, (discriminação baseada no género) e pelo
idadismo (discriminação baseada na idade).
Uma das razões que estará na
origem do preconceito e discriminação, será o
estereótipo, que será um conjunto de crenças
sobre os atributos pessoais de um grupo de
pessoas ou seja, são as características que um
indivíduo atribui aos membros de um grupo
social. Frequentemente, o estereótipo é uma
generalização e uma ideia excessivamente
simplificada e errónea de uma categoria de
pessoas.
A categoria de preconceito
associada à orientação sexual chama-se
heterossexismo, que é um conjunto de crenças
culturais, muito difundidas, e de valores, que
define a heterossexualidade como a única forma
válida de expressão sexual e estigmatiza e
critica todas as formas não heterossexuais de
comportamento (Herek, 1990). Todavia, as
ciências sociais e humanas e a própria medicina,
desde há décadas que concluíram que não existem
diferenças psicológicas nos indivíduos em função
da sua orientação sexual e que “a diferença
básica entre homossexuais e as outras pessoas é
apenas o seu comportamento sexual” (Dannecker,
1981). Esta conclusão da ciência culminou
com a retirada da homossexualidade da lista de
transtornos mentais da Associação Americana de
Psiquiatria, em 1973.
Ainda assim, é frequente a
referência de um conjunto de estereótipos
em relação a homens homossexuais como a
promiscuidade sexual, a emocionalidade, gostarem
de arte e de música, de serem femininos e de
serem criativos e complicados e também a
referência de estereótipos em relação a mulheres
lésbicas: serem “masculinas", terem cabelo curto
e serem negativas com os homens. A própria
psicologia e especialmente o modelo
psicanalítico, serviu para perpetuar uma
concepção da homossexualidade como algo de
patológico (p. exemplo como resultado de uma
dinâmica familiar desadequada- pai ausente, mãe
hiperprotectora; como sintoma de uma
personalidade narcísica, etc). Na realidade
nunca se encontrou evidência científica para
isto e os estudos indicam que os antecedentes de
hetero e homossexuais são os mesmos.
Outro problema actual é uma
possível interpretação da homossexualidade como
algo de patológico , por alguns técnicos
(psiquiatras e psicólogos), que conduzem " a
terapias desajustadas e a enviesamentos na
avaliação dos clientes" (Moita, 2001). Esta
leitura patológica da homossexualidade é
obsoleta há décadas, mas foi encontrada no
discurso de técnicos portugueses, sendo
"configurada como um défice", para além de
alguns clínicos terem mesmo construído uma
categorização da homossexualidade, "preenchida
por um discurso preconceituoso" (Moita, 2001).
Esta situação é paradoxal porque em vez de estas
pessoas conseguirem um maior bem estar com a
terapia, podem ainda ficar com mais crenças
negativas, e sentirem-se pior, devido a um "psi"
preconceituoso. Por isso é fundamental recorrer
a um técnico que aceite incondicionalmente as
diversas orientações.
A homofobia será uma
manifestação mais activa e severa do preconceito.
Pode ser definida como medo ou desprezo
pelos homossexuais e uma repulsa face às relações
afectivas entre pessoas do mesmo sexo e/ ou ódio
generalizado aos homossexuais. Em 1976, Lehne (re)
define homofobia como "um medo irracional ou
intolerância relativamente à homossexualidade".
Não será difícil relembrar
alguns acontecimentos em Portugal que ilustram o
heterossexismo/ homofobia:
- Censura ao beijo de duas
alunas numa Escola Secundária em Vila Nova de
Gaia (Novembro 2005)
- Reacções violentas dos
vizinhos de Helena Paixão e de Teresa Pires, o
casal que o Estado recusou casar (Fevereiro
2006).
Poderíamos enumerar um
conjunto de situações que, não raramente, são
experiênciadas pelas minorias sexuais: perda de
emprego, perda de custódia de crianças, ser
discriminado, sofrer violência física, esconder
a orientação sexual no trabalho ou mesmo ouvir
piadas anti- homossexuais. Mas a discriminação e
o experienciar tratamentos negativos da
sociedade relaciona-se com um maior número de
problemas psicológicos (Meyer, 1995). Não é de
estranhar que crescer numa cultura que
frequentemente transmite mitos e estereótipos,
por vezes muitos negativos, eles sejam
assimilados por todos nós, e internalizados
pelos homossexuais, chocando com a sua
identidade. Isto pode corromper fortemente o
sentido de valor pessoal e de auto- estima ("vou
beber para esquecer, "não interesso a ninguém",
"eu não presto enquanto homossexual"). Estas
atitudes e sentimentos negativos, internalizados
no homossexual, estão relacionados com
depressão, ansiedade, alcoolismo, abuso de
substâncias, distúrbios alimentares, ideias
suicidas e suicídio. Todavia, muitos gays e
lésbicas têm vidas extremamente felizes,
saudáveis e produtivas (Bradford, Ryan &
Rothblum, 1994)
Alguns autores falam no "stress
das minorias" (Virgínia Brooks, 1981),
como resultado da estigmatização. A causa inicial
deste stress é uma atribuição cultural de status
inferior a grupos particulares. Esta atribuição
de "imperfeição" ou "defeito" pode dirigir-se a
várias categorias de pessoas, especialmente
categorias baseadas no sexo, raça e orientação
sexual, podendo originar acontecimentos negativos
na vida do membro minoritário.
Consequentemente, se a cultura
transmite a ideia de que só a
heterossexualidade é válida e "normal", e
reprime, discrimina e nega outras possibilidades
não heterossexuais, não é de admirar que alguns
homossexuais tenham sentimentos de exclusão,
isolamento e solidão que frequentemente conduzem
à ansiedade e depressão. Neste contexto
cultural, será mais difícil desenvolver um auto-
conceito positivo e é frequente a vivência de um
conflito entre a pressão social para a
heterossexualidade e a motivação homossexual.
Mas, gays e lésbicas, em média, não diferem dos
heterossexuais em ajustamento psicológico
(Gonsiorek, 1991).
Provavelmente, a consequência
mais negativa do preconceito social será a
Homofobia Internalizada, que é a
internalização, pelo próprio homossexual,
das atitudes negativas da sociedade e a
incorporação de sentimentos negativos na sua
auto- imagem, no que resultará uma hostilidade
face à sua orientação sexual (Herek, 1996).
Outros grupos sociais poderão também
interiorizar preconceitos em relação ao seu
grupo social, como os negros e as mulheres.
Potencialmente, este stress
pode provocar prejuízos na saúde sobre os
membros da minoria sexual, mas nem todos os
membros podem sentir estas consequências.
Apesar da homofobia, lésbicas
e gays não diferem dos heterossexuais na
adaptação psicológica (Gonsiorek, 1991), havendo
mesmo muitas situações em que é vantajoso uma
orientação sexual homossexual. A diferença é
que, enquanto algumas pessoas aprendem a lidar
com sucesso sobre este stress, outras têm mais
dificuldade. Determinando quais são os factores
relacionados com as repercussões positvas e
negativas para a saúde, isto pode sugerir
direcções futuras para intervenções psicológicas
com gays, lésbicas e bissexuais que têm
dificuldade em lidar com o seu "status"
minoritário.
A avaliação / investigação
deste stress tem sido operacionalizada de duas
formas: avaliação do número de acontecimentos de
vida negativos e de preocupações/ conflitos no
dia-a-dia. Quanto maior for o número de
acontecimentos negativos/ preocupações, maiores
serão as hipóteses de depressão, dores de cabeça
crónicas, humor negativo, etc.
No contexto da vida das
minorias sexuais, ao experienciarem homofobia e
estigmatização, e eventos negativos relacionados
com a sua orientação sexual (perda de emprego,
casa, custódia de crianças, violência ou
discriminação), bem como situações perturbadoras
no dia-a-dia (ex: piadas anti-homossexuais),
poderão ficar propensos a uma maior número de
situações stressoras.
Fernando Lima Magalhães
(Texto apresentado na I
Jornada Nortenha de Sexualidade Humana, em 14 de
Dezembro de 2006, Porto )
Bibliografia Consultada
(básica):
Bradford, J.,
Ryan, C., & Rothblum, E.D. (1994). National
lesbian health care survey: Implications for
mental health care. Journal of Consulting
Clinical Psychology, 62, 228-242.
D'Augelli, A.
(1998). Developmental implications of
victimization of lesbian, gay, and bisexual
youth. In G. Herek (Ed.), Psychological
perspectives on lesbian and gay issues: Vol. 4.
Stigma and sexual orientation (pp. 187-210).
Thousand Oaks, CA: Sage Publications.
Gonsiorek,
J.C. & Wenrich, J.D. (1991). The definition and
scope of sexual orientation. In J.C. Gonsiorek
and J.D. Weinrich (Eds.), Homosexuality:
Research implications for public policy.
(pp.1-12). Newbury Park, CA: Sage.
Herek, G. M. (1998). Stigma
and sexual orientation: Understanding prejudice
against lesbians, gay men, and bisexuals.
Thousand Oaks, CA: Sage Publications.
Moita, Maria Gabriela (2001),
Discursos sobre a Homossexualidade no Contexto
Clínico: A Homossexualidade de Dois Lados do
Espelho. Dissertação de doutoramento: Instituto
de Ciências Biomédicas Abel Salazar,
Universidade do Porto.
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