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Como
se pode caracterizar o comportamento
sexual "normal"?
Por Fernando Lima
Magalhães
Não
existem respostas definitivas que expliquem a
origem das orientações sexuais. Muitas teorias
(biológicas, neuro- anatómicas, psicológicas) tem
sido avançadas por diversas ciências ao longo das
últimas décadas, para as tentar explicar. Mas será possível encontrar
explicações, causas ou origens para um conceito que
é complexo, multivariado, flexível, fluído e que
pode variar ao longo da vida e que tem tido diversos
significados ao longo do tempo? Provavelmente, a
Orientação Sexual será o resultado de uma complexa
interacção de factores biológicos, psicológicos,
sociais e culturais. Também se têm observado
comportamentos homossexuais em quase todas as
espécies animais em que se estudou o seu
comportamento sexual.
Muitas
pessoas já ouviram falar de certos termos
relacionados com a orientação sexual. Existem alguns
conceitos "populares" que em geral, quase que
pretendem "dividir" ou classificar as pessoas
segundo algumas categorias. Se bem que por vezes
possa ter alguma utilidade algum tipo de
classificação, porque nos ajuda a compreender a
realidade e a ordena-la, o mais provável é estarmos
a simplificar e a reduzir uma infinita complexidade
e variedade de pessoas a meras "categorias".
Muitas
vezes ouvimos falar de alguns termos “convencionais”
como homossexual, bissexual, heterossexual.
Basicamente, homossexual refere-se a alguém com
uma preferência emocional e física por pessoas do
mesmo sexo, bissexual à atracção física e emocional
por ambos os sexos e heterossexual à atracção física
e emocional por pessoas de sexo diferente.
Todavia, estas definições
restritas não conseguem explicar, por exemplo,
o porquê de muitos homens e mulheres perfeitamente
heterossexuais terem fantasias com pessoas do mesmo
sexo ( e vice-versa). Da mesma forma que um homem ou
mulher, heterossexuais, possam ter sonhos eróticos
ou mesmo apaixonar-se e ter relações sexuais com uma
pessoa do mesmo sexo, não deixando de ter a
orientação heterossexual.
Além destas definições, é sabido que a orientação
pode mudar ao longo da vida e muitas vezes é
dinâmica: ela pode variar infinitamente na sua
complexidade e vamos ver porquê. Os estudos também
demonstram que a orientação sexual não é uma escolha
voluntária (Coleman, 1987); este tipo de motivação é
algo que transcende a cada indivíduo, pois não é
possível mudar "conscientemente" nem através de
técnicas psicológicas (na época em que erradamente a
ciência e a cultura determinavam como adequado ou
normal, apenas a orientação heterossexual). Provavelmente,
em alguns países do mundo que ainda punem a
homossexualidade, certamente não teríamos aí
indivíduos homossexuais, pois não desejariam a pena
de morte.
Em 1948, Kinsey propôs uma forma um pouco mais
rigorosa de descrever a orientação sexual,
ultrapassando as categorias dicotómicas da época
(homossexual/ heterossexual). Para Kinsey, o
comportamento sexual podia ser descrito num
continuum, numa escala de 0 a 6, onde cada um dos
extremos representa um comportamento exclusivamente
hetero ou homossexual:
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0 |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
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0. Exclusivamente heterossexual
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1. Predominantemente heterossexual e apenas
incidentalmente homossexual
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2. Predominantemente
heterossexual e com experiências homossexuais mais
que incidentais |
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3. Igualmente heterossexual e
homossexual
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4. Predominantemente homossexual
e com experiências heterossexuais mais que
incidentais |
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5. Predominantemente homossexual e apenas
incidentalmente heterossexual |
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6. Exclusivamente homossexual |
Mais tarde, em 1978, Bell & Weinberg, adoptaram esta mesma escala de
0-6, mas os indivíduos seriam avaliados segundo
o comportamento sexual e segundo as fantasias
eróticas.
Foi outro autor, Klein (1978, 1980) ,
quem expandiu a compreensão da orientação
sexual, considerando-a dinâmica e multi-
variada. Inclui 7 dimensões na composição
da orientação sexual. Além disto, para a melhor
compreensão da orientação sexual ao longo da
vida, ela pode ser descrita em 3 momentos: no
presente (os últimos 12 meses), no passado (há
mais de 12 meses) e o ideal (que corresponde à
intenção real e predição do comportamento futuro
do indivíduo).
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Passado |
Presente |
Futuro |
1- Atracção sexual: quem acho atraente
como parceiro real ou potencial?
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2- Comportamento Sexual: quem são os
meus parceiros
sexuais
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3- Fantasias sexuais: sonhos e
pensamentos; com quem sonho acordado?
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4- Preferência emocional: com quem
prefiro estabelecer laços emocionais íntimos
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5- Preferência social: com quem prefiro
estar nos tempos livres
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7- Auto-identificação: como me identifico em termos de orientação
sexual.
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Para Fritz Klein, a complexidade da
orientação sexual poderá ser descrita tendo em
conta cada uma destas dimensões e a
variável "tempo". Para preenchimento da grelha
pode-se utilizar a escala de Kinsey citada.
Esta perspectiva mais ampla torna os
tradicionais pólos homo/ bissexual obsoletos
pois não explicam nem descrevem a complexidade
da orientação sexual. Nesta perspectiva, quando
é que poderemos considerar alguém heterossexual?
Será alguém que sente atracção e desejo sexual
por indivíduos de sexo diferente e experimenta
sentimentos positivos e de afecto por eles; o
indivíduo terá consciência disto e pode-se
reconhecer como heterossexual (a sua identidade)
e ter relações sexuais de acordo com ela.
Algumas pessoas podem reconhecer algum nível
de "bissexualidade" na descrição da sua
orientação sexual. Mas mesmo que um indivíduo
tenha comportamentos heterossexuais (ou
homossexuais) não quer dizer obrigatoriamente
que se auto- identifique como heterossexual (ou
homossexual). Podem haver comportamentos
homossexuais sem que as pessoas se sintam
homossexuais tal como pode haver comportamentos
heterossexuais sem que a pessoas se sintam
heterossexuais.
Alguns autores (Sell, 1997) criticam a escala
de Fritz Klein porque a importância relativa de
cada dimensão da orientação sexual não foi
devidamente investigada ou fundamentada
teoricamente. Todavia, Wayson (1983), considera
a grelha de Klein um instrumento válido e fiável
na avaliação da orientação sexual.
Ainda de referir a concepção de Shively e
DeCecco (1977), segundo a qual a
identidade sexual tem 4 componentes:
- Sexo Biológico: o sexo definido pelos
cromossomas/ genética
- Identidade de Género: é a convicção de cada
indivíduo de ser homem ou mulher, é o género com
que cada pessoa se identifica
-
Papel Sexual Social : pode-se definir
pelo conjunto de comportamentos associados com
masculinidade e feminilidade, num grupo ou
sistema social. As sociedades possuem um sistema
sexo e de género, ainda que os componentes e
funcionamento deste sistema varie bastante de
sociedade para sociedade. Por exemplo, aquilo
que era considerado "feminino" há poucos anos
atrás (como usar brincos, perfumes ou cremes de
beleza), é considerado "masculino" actualmente
ou considerado um comportamento aceitável para
os homens ( o que seria intolerado há poucos
anos).
- Orientação Sexual: Preferências
emocionais e/ou sexuais em relação a um ou ao
outro sexo.
Provavelmente teremos no futuro uma concepção
ainda mais vasta e complexa que permita melhorar
a compreensão da orientação sexual. As categorias
“convencionais” de orientação sexual
(homossexual, bissexual, heterossexual) são
muito simplistas para compreendermos a
diversidade sexual. Estes conceitos não
são estáticos e certamente terão outros
significados de acordo com as constantes
evoluções das sociedades e das culturas, que
interagem na construção das identidades
individuais. Outra hipótese é que estas
"categorias" de orientações sexuais poderão não
fazer sentido e desaparecer, no futuro. O
conceito de homossexualidade só apareceu no XIX,
construído pela medicina e deu-lhe um
significado preciso, médico. Mas da mesma forma
que estes significados das orientações sexuais
foram construídos culturalmente, elas poderão
ser "desconstruídos" ao longo do tempo. Será
que, tendo em conta as infinitas características
da identidade de alguém (género, sexo, idade,
profissão, origem social, etc) fará algum
sentido descrever alguém pela sua orientação
sexual? Qual o significado que atribuímos às
pessoas devido à sua orientação sexual?
O importante será termos
uma concepção das pessoas em que a
orientação sexual é simplesmente algo
que não aumenta ou reduz o valor de
alguém; cada pessoa é exactamente tão
respeitável, qualquer que seja a sua
orientação sexual, ou cor de pele,
altura, credo ou cor do cabelo.
PARA MAIS INFORMAÇÕES, VER
TAMBÉM:
Consequências do preconceito social exercido
contra gays, lésbicas e
bissexuais- repercussões psicológicas
Psicoterapia
Afirmativa para Gays e Lésbicas
Bibliografia Consultada:
Coleman, E. (1990). Toward a synthetic
understanding of sexual orientation. In
McWhirter, D. P.,Sanders, S. A., and Reinisch,
J. M. (eds.), Homosexuality/ Heterosexuality.
Concepts of Sexual Orientation, Oxford
University Press, New York.
Sell, R. L. (1997). Defining and measuring
sexual orientation: A review. Archives of Sexual
Behavior, 26, 643-658.
Shively, M. G., and DeCecco, J. P. (1977).
Components of sexual identity. J. Homosexuality
3: 41-48.
Última Actualização
16-Fev-2011
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